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Leopoldo II – O diabólico rei esquecido

A Bélgica dificilmente é o primeiro país europeu que nos veem a cabeça quando pensamos sobre “colonizadores com um rei cruel que causou desgraças nas vidas de milhões de pessoas”.

Entretanto, nem sempre foi assim!

Entre o final do século 19 e começo do século 20, no auge do imperialismo europeu na África, o rei Leopoldo II da Bélgica dirigia um império pessoal tão vasto e cruel que pode ser facilmente comparado com os piores ditadores da história, como Hitler, Stalin e Mao Tse Tung.

Mas afinal, o que ele fez de tão ruim? E o principal, qual o motivo dele não ser tão conhecido pelo que fez?

Confira agora neste artigo.

Rei Leopoldo da Bélgica
O rei cruel

Senta que lá vem História

Nada sobre sua juventude sugeria um futuro assassino. Leopoldo II assumiu o trono da Bélgica em 1865 e governou do jeito que os belgas esperavam de seu rei após as múltiplas revoluções e reformas que ocorreram no país nas últimas décadas.

Leopoldo tinha uma pequena (grande) obsessão. Ele estava convencido, como a maioria dos estadistas de sua época, de que a grandeza de uma nação era diretamente proporcional à quantidade de lucro que poderia sugar das suas colônias.

Primeiramente, em 1866, ele tentou obter as Filipinas da rainha Isabella II da Espanha. No entanto, suas negociações entraram em colapso quando Isabella foi derrubada em 1868.

Bélgica e Congo Belga
Comparação de tamanho entre a Bélgica (verde) e o Congo Belga (laranja)

Anos mais tarde, mais precisamente em 1876, Leopoldo II formou a Associação Internacional Africana para organizar e financiar explorações no vasto continente. Na teoria, isso era uma espécie de empreendimento filantrópico internacional, no qual o rei daria aos nativos as bênçãos do cristianismo e máquinas a vapor para melhorarem suas vidas.

Depois de diversas expedições, uma parte do território africano foi reivindicação ao rei e, ironicamente, chamado de “Estado Livre do Congo”, sendo formalmente reconhecido no Congresso de Berlim em 1885.

Após se tornar uma colônia da Bélgica, agora começa o reinado de terror.

O Terror do Congo Belga

Porque reinado de terror você pode estar se perguntando? Bom vamos lá, isso foi o que basicamente ocorreu no Congo Belga pelos próximos 25 anos:

  • Milhões de pessoas mortas (estimativas de 10 milhões);
  • Aqueles que permaneceram vivos eram obrigados a minerar ouro, caçar e matar elefantes pelo marfim de suas presas e desmatar florestas para plantações de borracha em todo o país.
  • Quem não realizava ou não cumpria as atividades propostas, teriam então suas mãos e pé amputados.

O governo belga emprestou a Leopoldo II o capital inicial necessário para esse projeto (lembrando, que inicialmente seria humanitário). Depois que ele pagou a dívida, literalmente 100% dos lucros foram diretamente para ele.

Esta não era uma colônia belga. Todo o território pertencia apenas a um único homem, e ele parecia determinado a espremer cada gota de dinheiro que pudesse.
Nos 25 anos em que o Estado Livre do Congo existiu, estabeleceu um novo padrão de crueldade que horrorizou até as outras potências imperiais da Europa.

Congo Belga
Tipos de cenas comuns na região

O Início do Inferno

A conquista começou com Leopoldo reforçando sua posição relativamente fraca, fazendo alianças com potências locais. O principal deles era um comerciante de escravos árabe chamado Tippu Tip.

O grupo de Tip tinha uma presença considerável no região, enviando remessas regulares de escravos e marfim para a costa de Zanzibar. Leopoldo acabou nomeando Tip como governador da província em troca de sua não interferência na colonização do rei nas regiões ocidentais.

Tip usou sua posição para aumentar o comércio de escravos e a caça ao marfim. Posteriormente, o público europeu, geralmente contra a escravidão, pressionou Leopoldo II a interromper. O rei finalmente fez isso da maneira mais destrutiva possível: ele levantou um exército substituto de mercenários congoleses para lutar contra as forças de Tip em todas as áreas densamente povoadas.

Tippu Tip comerciante de escravos
Tippu Tip

Depois de alguns anos e impossível calcular o número de mortos, eles expulsaram Tip e seus companheiros escravos árabes. A cruz dupla imperial deixou Leopoldo II sob controle total.

Controle Total do Rei

Com o campo limpo de rivais, o rei Leopoldo II reorganizou seus mercenários em um grupo cruel de ocupantes chamado Force Publique e os pôs a impor sua vontade em toda a colônia.

Leopoldo II escolheu a dedo governadores, cada um dos quais deu poderes ditatoriais sobre seus reinos. Cada funcionário era pago inteiramente por comissão e, portanto, tinha um grande incentivo para saquear o solo ao máximo de sua capacidade, sendo as principais atividades marfim, ouro, diamantes e borracha.

Os soberanos pressionaram um grande número de congoleses nativos para o trabalho agrícola; além de forçarem um número desconhecido no subsolo, onde trabalharam até a morte nas minas.

Elefantes portadores de marfim eram massacrados aos montes. Em outros lugares, houve violência nas plantações de borracha. Essas plantações precisavam de muito trabalho para se manter.

Homens colhendo borracha
Homens colhendo borracha

Para economizar tempo e dinheiro, os agentes do rei despovoavam rotineiramente vilarejos para abrir espaço para a colheita de dinheiro. No final da década de 1890, com a produção econômica de borracha mudando para a Índia e a Indonésia, as aldeias destruídas foram simplesmente abandonadas. Seus poucos habitantes sobreviventes foram deixados para então cuidar de si mesmos ou seguir para outra aldeia.

Ganância Extrema do Rei Belga

A ganância dos senhores do Congo não conhecia fronteiras. Em um dos piores entre todos os crimes cometidos, homens que não conseguiram cumprir sua cota de marfim e ouro, enfrentariam mutilações, com mãos e pés sendo os locais mais populares para amputação.

Se o homem precisasse de ambas as mãos para trabalhar, as autoridades cortariam as mãos de sua esposa ou filhos.

Pessoas que sofreram com o Rei Leopoldo
Exemplos de pessoas que foram mutiladas

Não se sabe ao certo quantas pessoas viviam no Estado Livre do Congo em 1885, mas segundo estimativas, havia cerca de até 20 milhões de pessoas antes da colonização. Na época do censo de 1924, esse número havia caído para 10 milhões.

Com a piora da qualidade de vida em geral, uma série de pandemias, como a doença do sono, varíola, gripe suína e disenteria amebiana contribuiram pala o número elevado de mortes.

A Desgraça Diminui

Eventualmente, as histórias do pesadelo que se desenrolava no Estado Livre chegaram ao mundo exterior. As pessoas criticaram as práticas nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na Holanda, todas as quais possuíam, por coincidência, grandes colônias produtoras de borracha e, portanto, estavam competindo com Leopoldo II por lucros.

Em 1908, Leopoldo II não teve escolha senão ceder suas terras ao governo belga. O governo introduziu algumas reformas imediatamente. Tornou-se tecnicamente ilegal matar aleatoriamente civis congoleses e os administradores passaram de um sistema de cotas e comissões para um sistema no qual eles recebiam pagamento apenas quando seus termos terminavam, e somente se o trabalho deles fosse considerado “satisfatório”.
O governo também mudou o nome da colônia para Congo Belga.

Charge rei Leopoldo
Charge de 1906, mostrando Leopoldo como uma cobra de borracha

Morte do Rei Leopoldo

Leopoldo II, rei dos belgas e, por um tempo, o maior proprietário de terras do mundo, morreu pacificamente no 44º aniversário de sua coroação em dezembro de 1909.

No final de sua vida, Leopoldo era impopular com seu povo, mas, ironicamente, não pelas suas ações na África, mas sim sobre sua vida pessoal.

Passava longos invernos em bairros luxuosos da Riviera Francesa e negava duas de suas três filhas. Além disso, ele tinha uma “propensão” bem conhecida por meninas adolescentes, Quando tinha 65 anos,se relacionou com uma ex-prostituta adolescente que lhe deu mais dois filhos.

Funeral do rei Leopoldo II
Foto do funeral do rei pelas ruas de Bruxelas

Vida após a Independência

Assim como muitos adultos têm dificuldade em superar uma infância ruim, a atual República Democrática do Congo ainda está lidando com trauma diretamente infligidos pelo governo do rei Leopoldo II. O sistema corrupto de comissões e bônus que a Bélgica adotou para os administradores coloniais ficou depois que os europeus saíram e o Congo ainda não tinha um governo honesto.

Mesma após a sua independência em 1960, pouca coisa mudou. A Grande Guerra Africana varreu o Congo durante os anos 90, matando aproximadamente 6 milhões de pessoas no maior derramamento de sangue desde a Segunda Guerra Mundial. Essa luta viu o governo ser derrubado em 1997 com uma ditadura igualmente sanguinária colocada em seu lugar.

Praticamente todos no país vivem em uma pobreza desesperada, apesar de estarem em um dos países mais ricos em recursos do planeta.

Povo sofrido
Cena comum na República Democrática do Congo (antigo Congo Belga)

É até díficil descrever o quanto uma pessoa pode ser ruim. Pessoas como Josef Mengele – O Anjo da Morte Nazista e os assassinos da Dália Negra e Sam do Tanque Séptico juntos com o Rei Leopoldo, devem pagar eternamente pelos seus crimes.

Fontes:

The Guardian

All Thats Interesting

Britannica

Sobre Matheus Henrique

Técnico em consertos e manutenção de máquinas do tempo, caçador de criaturas mitológicas, cover de Sherlock Holmes e falador de bobagens nas horas vagas

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